Não Há Nada que Estimule Tanto a Criatividade Como o Final do Mês

Sempre fui um bom garfo, sem ter qualquer género de alergia ou esquisitice com algum tipo de comida e acho que muito disto se deve aos pratos que a minha mãe cozinhava quando eu era miúdo.

Entre os mais frequentes havia a Açorda, o Rolo de Carne e o Arroz Com o Que Houver. O Arroz Com o Que Houver era uma especialidade que só era servida numa altura específica do mês e costumava coincidir com os últimos dias antes do meu pai receber o salário – era um bocado como aqueles restaurantes que só fazem Cozido à Portuguesa a certos dias da semana.

Foi graças a esta especialidade que passei a conhecer uma panóplia de combinações improváveis de sabores e que me ajudou a desenvolver um palato apurado. É que o “Arroz Com o Que Houver” tanto podia ser Arroz de Feijão, como Arroz com Lentilhas de Ontem, como Arroz com Vestígios de Cebola e por aí fora.

Com o tempo, a minha mãe começou a reparar que eu e os meus irmãos já não ficávamos muito entusiasmados quando sabíamos que vinha aí mais uma dose de Arroz Com o Que Houver.

Sabem o que é que ela fez? Num golpe apenas à altura dos maiores publicitários do mundo, retirou da ementa o “Arroz Com o Que Houver” para introduzir a “Massa com Massa”. Estrategicamente fazia todo o sentido porque nós éramos loucos por massa: a melhor coisa que nos podiam dizer era que o almoço ou o jantar ia ser massa.

A jogada dela funcionou, embora nos primeiros tempos tenha tido uma ligeira fase de adaptação:

– Mãe, o que é o jantar?
– Massa, meus queridos
– Yeeeaaaahhhhh, massaaaaaaa. Massa com o quê?
– Com massa, meus queridos.

E nesta parte é que se dava o curto circuito na nossa cabeça.. porque por um lado massa era a melhor coisa do mundo.. por nós comíamos sempre massa, mas normalmente a massa vinha com outras coisas, outros ingredientes que ajudavam a dar sabor e cor à massa – onde é que eles tinham ficado?

Mas uma vez mais a veia criativa da minha mãe deu-nos a volta e conseguiu por-nos a achar que se massa era a melhor coisa do mundo, então massa com massa só podia ser a melhor coisa do universo, melhor era impossível.

Este lado criativo da minha mãe não era inato, mas foi trabalhado e apurado ao longo do tempo. Se quiserem estimular a vossa criatividade, mais do que jogos, livros e quebra-cabeças, experimentem fazer um bolo para os vossos filhos com o que resta na cozinha nos últimos dias antes do salário cair. Aposto que as pessoas que dizem “ai eu não sou nada criativo” nunca tiveram que tentar fazer um bolo com margarina rançosa, farinha com formigas, leite em pó, uma batata e meio pau de canela. Ou nunca descobriram que atum enlatado com leite condensado pode ser uma sobremesa surpreendente.

Mas a minha mãe não era ríspida, não nos enfiava a comida pela goela abaixo, em vez disso convencia-nos de uma forma graciosa que aquele prato ou aquele ingrediente era na verdade muito bom, só tínhamos que lhe dar uma hipótese. Parece-me uma pedagogia louvável, em contraposição com o que o meu avô fazia com o meu pai – tratava-se de um método também eficaz mas um tanto mais drástico. Quando o meu pai era chamado para a mesa e perguntava com os olhos a brilhar o que era o almoço, o meu avô, do alto do seu cadeirão e sem desviar o olhar, rematava:
“Hoje é ensopado de cala-te e come”.

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